terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Reconstituição das rotas dos nómades do Paleolítico no vale de Lemos (Galiza)


Biface acheulense de Monforte (foto Alberto López)
Na primavera boreal de 2006 começou a se desenvolver o projeto arqueológico Ocupações humanas durante o Pleistoceno da bacia média do Minho, o programa de investigação das jazidas do Paleolítico mais longo e sistemático empreendido até agora na Galiza. O projeto é coordenado pela Universidade de Santiago de Compostela e conta com a colaboração de cientistas do Instituto Catalão de Paleoecologia Humana e outras instituições. O plano arqueológico foi posto em andamento depois de o pesquisador amador José Antonio Peña Alonso, vizinho de Monforte de Lemos, ter descoberto nos arredores da cidade um grande número de artefatos líticos espalhados pelo campo em diferentes locais. Os primeiros trabalhos enquadrados neste programa consistiram em prospecções arqueológicas de superfície que tinham por objetivo localizar jazidas ao ar livre na depressão de Monforte, a área mais baixa do vale de Lemos. As pesquisas estenderam-se  também para algumas áreas dos municípios vizinhos de Sober, O Savinhão e Bóveda.


Sondagem arqueológica em Monforte (foto Alberto López - La Voz de Galicia)
Nos anos seguintes, em uma série de prospecções e sondagens, os arqueólogos descobriram numerosos conjuntos de indústrias líticas em cerca de uma centena de locais espalhados por todo o território do vale de Lemos, principalmente na depressão de Monforte. Entre estes materiais há indústrias pertencentes aos três grandes períodos culturais do Paleolítico: Inferior, Médio e Superior. Estes achados constituem a maior concentração de sítios arqueológicos de diferentes períodos da pré-história remota encontrada até agora na Galiza e também a mais ampla seqüência de povoamentos paleolíticos ao ar livre conhecida no noroeste da Ibéria.

Principais vias de trânsito durante o Paleolítico no noroeste ibérico (fonte: To the West of Spanish Cantabria)
 As pesquisas realizadas na área desde 2006 sugerem que a presença dessas jazidas está relacionada com o papel crucial que parece ter desempenhado o vale de Lemos nos movimentos dos grupos nômades de caçadores-coletores do Paleolítico no noroeste da península. Um estudo publicado em 2011 no livro To the West of Spanish Cantabria apresenta uma hipótese segundo a qual este território constituiu um importante cruzamento de caminhos durante o Pleistoceno Médio e o Pleistoceno Superior. Conforme indicam os estudos realizados com ferramentas SIG sobre as rotas naturais com menor custo do noroeste da península, a depressão de Monforte está estrategicamente localizada na entrada dos corredores provenientes da parte ocidental da Meseta Central ibérica e funciona como um ponto nodal a partir do qual múltiplos caminhos divergem em diferentes direções. Esta condição de encruzilhada explica-se pela singular situação geográfica do território. De um lado, o vale de Lemos, com uma altitude média de 290 metros acima do nível do mar, está emoldurado pelos principais sistemas fluviais do noroeste ibérico, os dos rios Minho e Sil, que em grande parte condicionam as vias naturais de trânsito em toda a região. Ambos os rios fluem ao longo de vales profundos que seguem o curso de antigas falhas tectônicas abertas em áreas onde predominam as superfícies de granito e que impedem o acesso às zonas ocidental e setentrional do território galego.
 
Biface da Piteira (Museu Arq. de Ourense)


O vale do Minho funciona como um caminho natural que conecta diretamente esta região do interior com a costa do Oceano Atlântico. Seguindo o curso do rio, em torno da cidade de Ourense, existe um notável conjunto de jazidas do Paleolítico Inferior ao ar livre, situadas nas localidades de Pazos, A Piteira e A Chaira. Outras evidências arqueológicas deste período foram descobertas em torno do curso baixo do Minho, no sudoeste da Galiza, nas jazidas de Porto Maior e Gândaras de Budinho e em alguns terraços fluviais perto da foz do rio. Também foi registada a presença de indústrias do Paleolítico na costa de Portugal –no concelho de Caminha–, muito perto desta zona. 



 
Prospecção arqueológica em Quiroga (foto Alberto López - La Voz de Galicia)
O vale do Sil é outro grande corredor que liga o interior da Galiza com a parte ocidental da Meseta Central. No setor oriental deste vale fluvial registaram-se alguns achados isolados de artefatos líticos, no concelho de Quiroga e na comarca de Valdeorras. Há também registros de indústrias do Paleolítico a oeste da Meseta, em diversas áreas localizadas ao longo desta via natural. Em jazidas superficiais sitas nos terraços fluviais do rio Bernesga foram encontrados artefatos que apresentam semelhanças com as indústrias do Paleolítico Inferior do vale de Lemos. O Sil constitui aliás uma importante barreira natural que corta o acesso às regiões ocidentais da Galiza, pois corre por canhões profundos em grande parte do seu curso. A área de confluência com o rio Lor –tributário do Sil– e a borda oriental do vale de Lemos, onde as encostas são muito menos pronunciadas, oferecem uma via alternativa que permite ultrapassar este obstáculo. Outro corredor natural sobe do Vale do Douro –em Portugal–, cruzando as depressões de Verin e Maceda, e permite atravessar o Sil por algumas passagens estratégicas situadas a sul de Monforte.

Escavações na caverna da Valinha (foto César Llana)
Os pesquisadores apontam, além disso, que a depressão de Monforte está situada no limiar de um corredor formado por uma série de bacias de origem terciária que corre em direção norte-sul entre as serras orientais da Galiza e as peneplanícies graníticas do interior. Esta outra via natural conduz ao litoral do mar Cantábrico. Ao longo deste corredor encontram-se várias jazidas do Paleolítico Superior, entre as quais se destacam as do monte de Valverde (Monforte de Lemos) e da caverna da Valinha (concelho de Castroverde). Vestígios arqueológicos importantes do mesmo período também são conhecidos em vales próximos a este corredor natural, como as jazidas de Cova Eirós (concelho de Triacastela) e de alguns abrigos rochosos na zona do Valadouro. Na costa cantábrica existem diversas jazidas do Paleolítico que igualmente podem estar relacionadas com esta rota, como Louselas (concelho de Ribadeo, Galiza), Cabo Busto, Bañugues e Paredes (Astúrias). Outra via natural pode ter comunicado a depressão de Monforte com o vale do rio Ulha, passando pelo extremo norte da Serra do Faro. Porém, até agora só é conhecida uma jazida do Paleolítico Inferior que pode estar vinculada a este corredor. Foi descoberta em 2008 na aldeia de Pedras, localizada em uma pequena bacia do concelho do Savinhão, a dois quilômetros do curso do Minho.

Indústria lítica de Monforte (foto Alberto López - La Voz de Galicia)
Essa condição de encruzilhada do vale de Lemos parece ter persistido até nos períodos mais frios do Pleistoceno, quando grandes regiões da península e da Europa ficaram despovoadas. Estudos geomorfológicos e paleoclimáticos indicam que a depressão de Monforte e o vale do Sil, graças à sua baixa altitude, gozaram durante os períodos glaciais de umas condições climáticas menos rigorosas do que os territórios vizinhos, pelo qual poderiam ter servido como áreas de refúgio. A descoberta em Monforte de uma jazida do período Solutrense –a única conhecida até hoje na Galiza– prova que este território albergou grupos humanos durante o Último Máximo Glacial.
     A cronologia das ocupações humanas ao longo destas rotas naturais é por enquanto difícil de estabelecer, devido à falta de datações absolutas. Os vestígios arqueológicos encontrados nesses corredores são jazidas de superfície, descontextualizadas e desprovidas de fósseis, o que não permite realizar datações radiométricas. As únicas indústrias do Paleolítico Inferior similares às da depressão de Monforte que foi possível datar no norte da península foram descobertas na jazida de Trinchera Galería, na Serra de Atapuerca, e atribui-se-lhes uma antiguidade de cerca de 450.000 anos.


domingo, 18 de janeiro de 2015

Reconstrucción de las rutas de los nómadas del Paleolítico en el valle de Lemos (Galicia)



Bifaz achelense de Monforte (Foto A. López)

    En la primavera boreal de 2006 empezó a desarrollarse el proyecto arqueológico Ocupaciones humanas durante el Pleistoceno de la cuenca media del Miño, el programa más prolongado y sistemático de investigación de los yacimientos del Paleolítico emprendido hasta ahora en Galicia. El proyecto es coordinado por la Universidad de Santiago de Compostela y cuenta con la colaboración de científicos del Instituto Catalán de Paleocología Humana y de otras instituciones. El plan arqueológico se puso en marcha después de que el investigador aficionado José Antonio Peña Alonso, vecino de Monforte de Lemos, descubriese en los alrededores de la ciudad un gran número de artefactos líticos esparcidos por el campo en diferentes lugares. Los primeros trabajos encuadrados en este programa consistieron en prospecciones arqueológicas en superficie que tenían por objetivo localizar yacimientos al aire libre en la depresión de Monforte, la zona más baja del valle de Lemos. Las exploraciones se extendieron también a algunas áreas de los municipios limítrofes de Sober, O Saviñao y Bóveda


 
Sondeo arqueológico en Monforte (Foto Alberto López - La Voz de Galicia)
En los siguientes años, en una serie de prospecciones y sondeos, los arqueólogos descubrieron numerosos conjuntos de industrias líticas en cerca de un centenar de lugares repartidos por el territorio del valle de Lemos, principalmente en la depresión de Monforte. Entre estos materiales hay industrias pertenecientes a las tres grandes etapas culturales del Paleolítico: Inferior, Medio y Superior. Estos hallazgos conforman la mayor concentración de sitios arqueológicos de diferentes épocas de la prehistoria remota encontrada hasta ahora en Galicia y a la vez la secuencia más amplia de poblamientos paleolíticos al aire libre conocida en el noroeste de Iberia.

Principales vías de tránsito en el noroeste ibérico durante el Paleolitico (fuente: To the West of Spanish Cantabria)

Las investigaciones realizadas en la zona desde 2006 sugieren que la presencia de estos yacimientos está relacionada con el papel crucial que parece haber desempeñado el valle de Lemos en los desplazamientos de los grupos nómadas de cazadores-recolectores del Paleolítico por el noroeste de la península. Un trabajo publicado en 2011 en el libro To the West of Spanish Cantabria expone una hipótesis según la cual este territorio constituyó un importante cruce de caminos durante el Pleistoceno Medio y el Pleistoceno Superior. Según indican los estudios realizados con herramientas SIG sobre las rutas naturales de menor costo del noroeste de la península, la depresión de Monforte está situada estratégicamente en la entrada de los corredores procedentes del sector occidental de la Meseta Central ibérica y funciona como un punto nodal a partir del cual divergen varias rutas en distintas direcciones. Este papel de encrucijada se explica por la singular situación geográfica del territorio. Por un lado, el valle de Lemos con una altitud media de 290 metros sobre el nivel del marestá enmarcado por los principales sistemas fluviales del noroeste ibérico, los de los ríos Miño y Sil, que condicionan en gran medida las vías naturales de tránsito en toda la región. Ambos ríos discurren por valles profundos que siguen el curso de antiguas fallas tectónicas abiertas en zonas donde predominan las superficies graníticas y que dificultan el acceso a las áreas occidental y septentrional del territorio gallego.   

Bifaz de A Piteira (Museo Arq. de Ourense)






 
 El valle del Miño funciona como una vía natural que comunica directamente esta región del interior con la costa del océano Atlántico. Siguiendo el curso del río, en los alrededores de la ciudad de Ourense, existe un notable conjunto de yacimientos al aire libre del Paleolítico Inferior situados en los lugares de Pazos, A Piteira y A Chaira. Otros rastros arqueológicos de este período se han localizado en torno al curso bajo del Miño, en el sudoeste de Galicia, en los yacimientos de Porto Maior y Gándaras de Budiño y en algunas terrazas fluviales próximas a la desembocadura del río. También se registró la presencia de industrias paleolíticas en la costa de Portugal –en el municipio de Caminha, muy cerca de esta zona.  





Prospección arqueológica en Quiroga (foto: Alberto López - La Voz de Galicia)

 El valle del Sil es otro gran corredor que conecta el interior de Galicia con la parte occidental de la Meseta Central. En el sector oriental de este valle fluvial se registraron algunos hallazgos aislados de artefactos líticos, en el municipio de Quiroga y la comarca de Valdeorras. También existen  registros de industrias paleolíticas en el oeste de la Meseta, en diversas zonas situadas a lo largo de esta vía natural. En los yacimientos de superficie de las terrazas fluviales del río Bernesga se han descubierto artefactos que presentan similitudes con las industrias del Paleolítico Inferior del valle de Lemos. El Sil  representa por otro lado una importante barrera natural que corta el paso hacia las regiones occidentales de Galicia, ya que discurre entre cañones profundos en gran parte de su curso. La zona de confluencia con el río Lor –tributario del Sil– y el borde oriental del valle de Lemos, donde las pendientes son mucho menos acusadas, ofrecen una vía alternativa que permite salvar este obstáculo. Otro corredor natural asciende desde el valle del Duero o Douro –en Portugal–, atravesando las depresiones de Verín y Maceda, y permite cruzar el Sil por algunos pasos estratégicos situados al sur de Monforte.

Excavaciones en la cueva de A Valiña en los años 80 (foto: César Llana)
 Los investigadores señalan por otra parte que la depresión de Monforte está situada en el umbral de un corredor formado por una serie de cuencas de origen terciario que discurre en dirección norte-sur entre las sierras orientales gallegas y las penillanuras graníticas del interior. Esta vía natural conduce hasta la costa del mar Cantábrico. A lo largo de este corredor se encuentran varios yacimientos del Paleolítico Superior, entre los que destacan los del monte de Valverde (en Monforte) y la cueva de A Valiña (municipio de Castroverde). También se conocen importantes rastros arqueológicos del mismo período en valles próximos a este corredor natural, como los yacimientos de Cova Eirós (municipio de Triacastela) y de algunos abrigos rocosos en la zona de Valadouro. En la costa cantábrica existen diversos yacimientos paleolíticos que pueden estar igualmente relacionados con esta ruta, como los de Louselas (municipio de Ribadeo, Galicia), Cabo Busto, Bañugues y Paredes (Asturias). Otra vía natural puede haber comunicado la depresión de Monforte con el valle del río Ulla, pasando a través del extremo norte de la sierra del Faro. Por ahora solo se conoce un yacimiento del Paleolítico Inferior que puede estar vinculado a este corredor. Fue descubierto en 2008 en la aldea de Pedras, situada en una pequeña cuenca del municipio de O Saviñao, a dos kilómetros del cauce del Miño. 

Industria lítica de Monforte (Foto: Alberto López - La Voz de Galicia)
Esta condición de cruce de caminos del valle de Lemos parece haber perdurado incluso en las épocas más frías del Pleistoceno, cuando grandes regiones de la península y de Europa quedaron despobladas. Los estudios geomorfológicos y paleoclimáticos indican que la depresión de Monforte y el valle de Sil, gracias a su baja altitud, gozaron durante los períodos glaciales de un clima menos riguroso que los territorios circundantes, por lo cual pudieron servir como áreas de refugio. El hallazgo de un yacimiento del período Solutrense en Monforte –el único conocido hasta hoy en Galicia– demuestra que este territorio albergó grupos humanos durante el Último Máximo Glacial.
    La cronología de las ocupaciones humanas a lo largo de estas rutas naturales es difícil de establecer por el momento debido a la falta de dataciones absolutas. Los vestigios arqueológicos hallados en estos corredores son yacimientos de superficie, descontextualizados y desprovistos de restos fósiles, lo que no permite realizar dataciones radiométricas. Las únicas industrias del Paleolítico Inferior similares a las de la depresión de Monforte que se han podido datar en el norte de la península fueron descubiertas en el yacimiento de Trinchera Galería, en la sierra de Atapuerca, y se les ha asignado una antigüedad de en torno a 450.000 años.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Monte de Valverde (Monforte de Lemos), a primeira jazida solutrense descoberta na Galiza



Pontas solutrenses de Valverde em quartzito (esquerda) e sílex

  Em 2007 foi descoberto no monte de Valverde –perto da cidade de Monforte de Lemos, na Galiza– um importante conjunto de artefatos líticos do Paleolítico Superior. O achado foi feito no decurso de umas prospeções arqueológicas realizadas no âmbito do projeto Ocupações humanas durante o Pleistoceno da bacia média do Minho, principiado em 2006. Os utensílios estavam espalhados pelo chão em uma pequena chapada da encosta sudoeste do monte, a uma altitude de 380 metros acima do nível do mar, e apresentavam um bom estado de conservação. Tudo indica que as peças foram desenterradas de um modo fortuíto pouco tempo atrás, durante os trabalhos de abertura de um trilho florestal que atravessa a zona.

Sondagem arqueológica em Valverde, 2009 (Foto: Roi Fernández - La Voz de Galicia)
Nos dois anos seguintes realizaram-se no local novas prospeções e duas sondagens arqueológicas. Nestes trabalhos foi possível recolher um total de 2.434 artefatos líticos. A princípio, os pesquisadores classificaram provisoriamente um par dessas peças como pertencentes à cultura solutrense, da qual não se conhecia até aí nenhuma evidência no noroeste da Península Ibérica. Os estudos realizados ao longo dos anos seguintes despejaram as dúvidas e determinaram que a grande maioria desses artefatos são efetivamente indústrias solutrenses. Os resultados destas pesquisas foram apresentados em um artigo publicado na revista Espacio, Tiempo y Forma.  

Mapa da Europa solutrense (áreas sombreadas) segundo L.G. Straus
 A cultura solutrense desenvolveu-se entre há 22.000 e 17.000 anos –algumas datações prolongam-na até há cerca de 16.500 anos– e coincidiu com o Último Máximo Glacial ou pleniglacial würmiano, uma das etapas mais frias e secas da glaciação de Würm-Wisconsin. As condições extremas que ocorreram durante esse período climático fizeram com que a maior parte da Europa ficasse despovoada e obrigaram os escassos grupos humanos do continente a se concentrarem em certas regiões mais favoráveis para a sobrevivência. Todos os sítios arqueológicos do Solutrense conhecidos até agora se encontram em algumas áreas da Península Ibérica e da França. O arqueólogo Lawrence Guy Straus observa que, de acordo com os conhecimentos atuais, esses centros de população humana ficaram separados por zonas de despovoamento relativo ou talvez quase absoluto, dependendo das condições climáticas –sobretudo da umidade– que se registaram em cada momento desse período. Dentro dessas áreas de refúgio, as populações locais poderiam ter sido relativamente densas.

Pingente gravetiano de Cova Eirós (colmilho de carnívoro)
O achado de Monforte de Lemos vem preencher parcialmente o vasto espaço vazio que existia até agora no mapa no que diz respeito às ocupações solutrenses no noroeste da Ibéria. As jazidas desse período mais próximas à Galiza conhecidas com anterioridade estão localizadas no vale do Côa (norte de Portugal) e no vale do Nalón (Astúrias). Até recentemente também não se registara na Galiza nenhuma evidência da presença humana no período compreendido entre há 31.000 e 15.000 anos, que coincide em parte com esse período de frio extremo. Mas as descobertas feitas nos últimos anos nos sítios paleolíticos de Cova Eirós (concelho de Triacastela) e Valdavara (concelho de Becerreá) forneceram indícios de ocupação humana nos momentos imediatamente anteriores e posteriores ao Último Máximo Glacial. Em Cova Eirós foi achado um nível arqueológico relacionado com a cultura gravetiana –o primeiro encontrado na Galiza com uma antiguidade de perto de 26.000 anos. Em Valdavara foram identificadas diferentes ocupações datadas aproximadamente de entre há 20.000 e 14.600 anos. Todos estas descobertas sugerem que pôde haver um povoamento mais ou menos continuado durante o Último Máximo Glacial em determinadas áreas de refúgio do noroeste ibérico –vales do interior e faixas litorâneas–, semelhante ao detetado na Cornija Cantábrica. Com anterioridade até era possível julgar que na Galiza se dera uma situação análoga à de algumas zonas do interior da península –como a parte norte da Meseta Central–, onde não se supunha um povoamento generalizado até à época tardiglacial.

Algumas matérias-primas das indústrias de Valverde




As indústrias líticas da jazida de Valverde foram fabricadas com uma notável variedade de matérias-primas, cuidadosamente selecionadas pela sua qualidade para o talhe. Os arqueólogos identificaram peças feitas a partir de quartzo, cristal de rocha, quartzito comum, quartzito de grão fino, argilito, sílex, lidito e hematita. Alguns desses materiais, como os quartzitos de grão fino, foram obtidos em afloramentos localizados nas proximidades, em um raio de dez quilómetros. Porém, o sílex –na coleção há peças fabricadas com seis tipos diferentes deste mineral– não se encontra de forma natural na Galiza. Os investigadores acreditam que este material pode proceder da área cantábrica. 




 


Indústrias líticas de Valverde (Foto: Alberto López - La Voz de Galicia)
Nesta grande coleção lítica, que abrange peças acabadas e restos de talhe, foi possível identificar com precisão as cadeias operativas caraterísticas da sofisticada tecnologia solutrense. As análises de laboratório indicam que muitos desses artefatos foram talhados com o método de percusão com percutor macio, empregando como percutores instrumentos de madeira ou de chifre de cervídeo. As peças fabricadas com um dos tipos de sílex apresentam um lustre que indica terem sido submetidas a um tratamento térmico, quer dizer, foram aquecidas no fogo para facilitar o talhe mediante pressão. O uso generalizado do retoque bifacial, a presença de fragmentos de pontas de loureiro e em especial um exemplar de ponta de base côncava permitem relacionar estas indústrias com o Solutrense superior cantábrico. Os artefatos de Valverde mostram semelhanças com os que foram descobertos em sítios como Cueto de la Mina, Cueva del Conde, Cueva del Mirón, Aitzbitarte, Chufín, La Riera e sobretudo a gruta de Las Caldas, nas Astúrias. Por analogia com as indústrias desta última jazida, os arqueólogos calculam que o conjunto lítico de Monforte de Lemos pode datar de há 20.000 anos. Não foi possível determinar melhor a sua antiguidade mediante a estratigrafia ou as datações radiométricas, porque o terreno onde apareceram estas indústrias está muito alterado pelas lavouras agrícolas. 

 
Utensílio lítico de Valverde em quartzito (Foto Alberto López)
As similitudes técnicas com as indústrias da região cantábrica são também evidentes nas jazidas de Côa, em Portugal, pelo qual se supõe que os povoadores solutrenses do vale de Lemos mantiveram relações com esses outros territórios. Segundo Lawrence Guy Straus, um dos maiores especialistas no Solutrense ibérico, esta descoberta ajuda a esclarecer os vínculos que possam existir entre as diferentes áreas de assentamento do norte da península durante o Último Máximo Glacial. Naquele período de extrema dificuldade, diz o arqueólogo, «os contatos humanos eram essenciais para a manutenção demográfica (a busca de um par fora de cada pequeno bando local, a exogamia), para a troca de informações sobre a caça e as condições de vida em diferentes áreas e para obter a possibilidade de segurança ou de resgate em momentos de crise (por exemplo, invernos ruins, colapso de caça local, 
perda dos melhores caçadores do bando)».

 
Mapa de visibilidade do monte de Valverde (áreas em gris)
A jazida apareceu em uma zona resguardada dos ventos predominantes de nordeste, de onde é possível avistar um vasto panorama da depressão de Monforte e do corredor natural que liga a área com a vizinha depressão de Bóveda. Por esta passagem, no sopé do monte de Valverde, corre hoje uma estrada que liga Monforte de Lemos com a cidade de Lugo. A visibilidade que oferece este local foi sinalada em um mapa traçado com ferramentas SIG. Os estudos realizados até agora permitem supor que os caçadores-coletores solutrenses estabeleceram nesta paragem estratégica –não é possível saber por quanto tempo– um acampamento do qual poderiam vigiar a passagem dos rebanhos de herbívoros. Este tipo de emprazamento é caraterístico dos assentamentos do Paleolítico Superior da Galiza, onde –segundo indicam os arqueólogos– «os critérios de proximidade aos cursos de água e às fontes de matérias-primas parecem supeditados aos critérios de controle e visibilidade das principais vias de trânsito». Na parte alta do monte, não longe do assentamento, destaca-se a presença de um rochedo conhecido como Penedo de São Roque. Os pesquisadores julgam que este ponto facilmente distinguível de longe pôde servir como referente visual para os povoadores do Solutrense.  
 
Vista da depressão de Monforte do alto do monte de Valverde (Foto: Carlos Rueda - La Voz de Galicia)
 Os arqueólogos supõem que os povoadores de Valverde só visitavam o vale de Lemos durante o verão, pois no inverno este território devia ser demasiado inóspito e hostil. No interior da Galiza, as temperaturas médias durante o período invernal eram da ordem de zero graus centígrados ou de dois graus abaixo de zero. Nas épocas mais frias do ano, os grupos nómades migrariam para as zonas costeiras, onde a oscilação térmica entre o verão e o inverno era menos acusada. É muito provável que se deslocassem para o litoral cantábrico, mas também podem ter viajado até à costa sudoeste da Galiza, que ofereceria umas condições mais suportáveis do que as terras do interior. Nessa parte do litoral ainda não se descobriram rastos arqueológicos deste período, mas isso pode ser devido à falta de investigações. Por outro lado, muitos vestígios dos acampamentos solutrenses podem ter sido sepultados pela subida do nível do oceano ao final da glaciação. Durante o Último Máximo Glacial, o nível do mar estava entre cem e 140 metros mais abaixo do que hoje e a linha da costa encontrava-se a mais de dez quilómetros de distância da atual.

Vidoeiro, Betula pendula (Wikimedia Commons)
 A paisagem e os ecossistemas do noroeste ibérico eram muito diferentes dos atuais nessa etapa da pré-história. As análises do pólen fossilizado indicam que os bosques do interior eram escassos e estavam formados principalmente por espécies do género Pinus, ao passo que as árvores caducifólias representavam apenas cerca de um 5% do total. Nas zonas mais úmidas, a paisagem mais comum era a estepe herbácea. As áreas mais secas e continentais ficaram reduzidas a estepes semidesérticas. No litoral predominavam também as plantas não arbóreas –gramíneas e espécies arbustivas como as ericáceas–, mas os bosques eram um pouco mais abundantes, sem ultrapassar o 20% da massa vegetal. As árvores mais numerosas eram os carvalhos e vidoeiros, com uma menor presença de aveleiras, freixos, amieiros e salgueiros. As rias galegas não estavam inundadas pelo mar e em seu lugar havia vales fluviais onde alguns redutos florestais se alternavam com zonas pantanosas e alagadiças. Estas áreas costeiras, juntamente com alguns territórios do interior onde se davam umas condições climáticas e ambientais similares –os vales mais úmidos e mais protegidos do frio– constituíam os principais refúgios da vegetação e da fauna, e portanto também dos grupos humanos. As serras orientais da Galiza, cobertas em grande parte por glaciares e neves perpétuas, eram muito provavelmente territórios inabitáveis.

Fauna europeia do Pleistoceno (renas e mamutes). Ilustração de Mauricio Antón
 Quanto à fauna, cabe supor que no vale de Lemos e noutros territórios do interior da Galiza houve importantes populações de herbívoros, pois o assentamento de Valverde está necessariamente ligado à existência de caça. Porém, nesta região geográfica conhecem-se muito poucos registos fósseis faunísticos dessa época concreta. Na jazida da caverna da Valinha –no concelho de Castroverde– descobriram-se restos de renas aos que as datações por carbono-14 assignaram idades de cerca de 21.000 e 16.000 anos. O fóssil de mamute achado em 1961 no concelho do Íncio –o único conhecido até hoje na Galiza– poderia pertencer também a esta etapa fria, mas esses vestígios nunca foram objeto de uma datação radio-carbónica, pelo qual é ignorada a sua antiguidade real. Nas jazidas do Solutrense da área cantábrica foram catalogados fósseis de diversas espécies animais –-cavalo, veado, gamo, camurça, urso pardo, urso-das-cavernas, lobo, raposa-vermelha e leopardo europeu, entre outras– que também podiam fazer parte da fauna do interior da Galiza nesse período.